Aprendi com Vernant & Detienne que Odisseu é a encarnação da MÉTIS, a esperteza, a malandragem, uma manifestação da inteligência humana que se distingue do LÓGOS. Eles ensinam, naquele belíssimo livro dedicado às “Astúcias da Inteligência”, que quem tem métis é sagaz no uso de ações e discursos eficazes para atingir seus fins (nem sempre moralmente nobres). Equiparado à raposa e ao polvo, animais fabulosamente dotados de astúcia, o sujeito com Métis tem o jogo-de-cintura pra driblar a adversidade, é repleto de artimanhas e se livra de enrascadas também pela poiésis.
A epopéia homérica constrói Odisseu como o herói “polymétis”, dotado de esperteza múltipla, inclusive linguística: trickster, malandrão, engambelador, o rei de Ítaca, em sua longa jornada de volta aos braços de Penélope, deveria ser isto, a manifestação suprema da Métis. Diante do Ciclope, por exemplo, decide apresentar-se como Ninguém, assim como, no retorno à ilha infestada pelos pretendentes, vem no disfarce de um mendigo – ao invés da ostentação de si, Odisseu é um baile de máscaras e uma encarnação clássica do que o Renascimento chamará de polímata e que se encarnará, por exemplo, em Leonardo Da Vinci.
Mas esta MÉTIS tomou um chá de sumiço nas 3 horas do blockbuster de Nolan: é claro que o subterfúgio do Cavalo que penetrou na fortaleza inabalável de Tróia está lá, como símbolo máximo desta capacidade-de-enganar, rendendo loas a Odisseu por ter feito os helenos vencerem após passarem 10 anos de raiva atolados naquela praia, trancados de fora dos muros e do resgate de Helena.
Mas todo o episódio do Cavalo de Tróia pareceu-me desprovido de “wit”, reduzido a um âmbito de virilidade bélica. Nolan decidiu construir um herói atormentado por seu feito, moralmente pesaroso por ter propiciado a invasão do território troiano por um exército sanguinário.
Também tomou outro chá de sumiço o Odisseu narrador de suas próprias façanhas, o sujeito que conta suas proezas a ouvidos interessados, amplificando-as com a lente de aumento do “storyteller”. Eu acabo de ler o belíssimo livro da filósofa italiana Adriana Cavarero, “Olha-me e Narra-me – Filosofia da Narração”, e assistir ao filme com ele fresco na mente me fez enxergar o quanto Nolan desapareceu com o Odisseu contador-de-histórias, loroteiro, narrador de sua travessia. Mas outros chás de sumiço ainda mais graves marcam as omissões graves que o filme carrega.
Primeiro, sumiram com o nome de Ifigênia, com o peso de seu sacrifício, com o impacto emocional de sua morte atroz que tão fortemente ressoa na tragédia (“Ifigênia em Áulis”, de Eurípides) e que tantos lamentos belíssimos arrancou de Lucrécio, estarrecido diante dos horrores de que se tornam capazes os humanos quando presas da superstição e da credulidade. O filme trata Ifigênia como assunto menor, decide nem mesmo nomeá-la, e assim constrói Agamenon como um pobre coitado que volta pra casa e é chacinado pela esposa Clitemnestra e seu amante. Bem, o assassinato por sacrifício de Ifigênia não é assunto menor, é o pontapé inicial da Ilíada, uma atrocidade que deixa seus legados, e achei lamentável que um dispositivo potencialmente poderoso para debater temáticas étnico-raciais tenha sido tão desperdiçado: Helena e Clitemnestra, no filme, são interpretadas por mulheres negras. Mas não ficam em cena senão por alguns segundos.
A produção de Nolan conseguiu aniquilar, de maneira mesquinha, todo o poder destas personagens femininas ao relegá-las ao segundo plano e fazê-las surgir só en passant. O chefe dos exércitos gregos, Agamenon, em seu “homecoming”, paga o preço por ter assassinado sua filha com Clitemnestra, mas no filme tudo parece reduzido a uma cena caricata em que uma mulher negra alucinada, em conluio com o cara com quem chifrou o marido ausente, assassina-o numa cena gore. Deu pra ver que o diretor de “Inception”e “Interestelar” não manja muito de tragédia.
Também fui ao cinema, depois de ler sobre o bafafá que a direita conservadora armou pra cima de Lupita como Helena, esperando algo muito mais “woke” – mas não há nem sinal aqui de um debate sobre uma deusa de ébano, uma beldade africana, que tivesse se alçado ao posto de mais bela mulher do mundo conhecido sem ter os atributos de uma ariana. Helena é uma personagem apagadíssima, reduzida à servilidade diante de Menelau, num papel tão secundarizado, tão minúsculo, que nem menos dá ensejo pra Lupita tentar uma performance digna de um Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante. Ela é menos que coadjuvante e o bafafá dos direitosos é muita tempestade em copo d’água. Helena, em sua complexidade, em sua psiquê labiríntica, no mistério de sua ida a Tróia com Páris (rapto ou pacto?), é chutada pruma nota de rodapé num filme que, ao menos, e era o mínimo, dá muito mais palco pra Penélope de Anne Hathaway.
Também não gosto do tom dark, das cores frias, da tentativa de trazer verossimilhança aos episódios com o Ciclope, com Circe, com Calipso – vê-se que Nolan quis dosar pra baixo a Fantasia, até quase fazê-la desaparecer, e assim despovoou o filme da agência dos olímpicos. Zeus e Poseidon só aparecem nas falas, mas não são figurados; no entanto, Atena aparece em “carne-e-osso”, digamos, interpretada por um pouco convicente Zendaya (a persona dela é a Rue de Euphoria; aqui, Zendaya parece com um Atena esquálida, apesar de seu esforço pela altivez). Os marujos até comentam que, após ferir o olho do Ciclope, Odisseu enfureceu o deus dos mares, e por isso a jornada tem tantas intempéries, mas toda a “magia” do politeísmo clássico se dissolve num certo realismo-em-IMAX que não honra a mitologia e sua intrincada trama entre deuses, heróis, ninfas, semideuses e o escambau.
Também acho que Matt Damon é um ator de “cinema-físico”, tem boa presença de tela, mas o polymétis Odisseu tem muito mais a ver com a vibe de Kirk Douglas no Ulysses de 1954. É que Nolan deu um chá-de-sumiço completo no humor, fazendo um filme extremamente grave e sério, quando a epopéia tem sim seus momentos de graça, seus arroubos lúdicos, sua poesia de bufonaria – eu acho até que Shakespeare forjava seus brilhantes personagens cômicos como Falstaff e Yorick também mergulhando em Homero. O herói encarnado por Matt Damon não tem a lábia sagaz, a astúcia multiforme, está reduzido a um quase unidimensional herói bélico-viril.
Ao menos nisto o filme presta: mostra que Odisseu não é nenhum santo, na verdade é o praticante de uma chacina no palácio de Ítaca, quando mata geral aos pretendentes à mão de Penélope; e é também o grande propiciador da queda de Tróia, com tudo que isto implicou de saques, incêndios, estupros, degolas, pessoas trucidadas pelos helenos pretensamente civilizados e que dali levaram, como butim de guerra, escravas sexuais que depois lançaram lenha na fogueira da treta entre Aquiles e seu general Agamenon, vide o início da Ilíada.
Nolan constrói um Odisseu envelhecido, vivido por um Matt Damon ele mesmo grisalho e alquebrado, que sente um pesadume da consciência por ter feito advir tantos males; ele sabe que, por sua causa, milhares morreram, muitas mães ficaram viúvas, muitas filhas órfãs, e muitas divindades foram ofendidas ao terem suas estátuas decapitadas etc. Mas não sei se isso é homérico ou se é cristão-tardio, uma espécie de reflexão melancólica sobre os horrores da guerra, mas num filme inteirinho imerso na virilidade bélica.
Por fim, um comentário sobre a cena do Canto das Sereias, esta obra-prima na história dos mitos, que o filme reduz a um episódio sem grande densidade: todos já conhecíamos o enredo – Odisseu pede aos marujos que enfiem cera nos ouvidos, mas pede que ele seja atado ao mastro. Nolan perde a oportunidade de tematizar o apelo erótico destas sereias cantarolantes, apenas pudicamente sugerido por uma câmera muito distanciada, beata em seu pavor da nudez, e assim a personagem de Odisseu fica empobrecida. Uma cena que tem tão esplêndido legado nas artes plásticas, como em John W. Waterhouse, tem todo seu colorido esmaecido; mais uma vez, foi dado um chá de sumiço no feminino, para que todo o foco recaia sobre o herói viril; temos aqui o cara que deseja ir aos confins da tentação, mas conhece seus limites, é verdade; mas a potência de sedução das sereias é pálida, sem verve, com uma música atmosférica sem graça, impedindo a obra de se alçar àquilo que na cultura helênica clássica era o âmbito de Orfeu, de Pan, de Dioniso…
Não, a lira de Orfeu não consegue se plasmar nas cenas de Nolan, nem há sinal algum da veia “bacântica” que irrigava a cultura dos helenos. Nesta Odisséia viril, a poesia, a narração, a arte como sedução para uma arte-de-viver que tem a beleza como única redenção e justificação, para falar um pouco na linguagem zaratustriana de Nietzsche, perdeu-se numa epopéia dark que lamenta-se pelos horrores infindos da guerra mas nos deixa atolados no vil virilismo que não cessa de produzi-los.
– Eduardo Carli, 19/07/2026

Publicado em: 19/07/26
De autoria: Eduardo Carli de Moraes educarlidemoraes
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